Descobridor do vírus da Aids vem ao Recife
A descoberta de uma vacina capaz de ao mesmo tempo tratar a Aids e imunizar contra a infecção pelo vírus HIV pode estar mais próxima do que supõem as previsões científicas. Motivo de uma verdadeira corrida entre a comunidade médica, uma grande esperança de cura para doença que atinge 40 milhões de pessoas no mundo será apresentada em Pernambuco na próxima sexta-feira pelo médico francês Jean Claude Chermann. O pesquisador, que trabalhou no Instituto Pasteur e é um dos descobridores do vírus HIV, é um dos convidados para a Jornada Pernambucana de Ginecologia e Obstetrícia, que acontece em Gravatá, no Agreste do estado, a partir da próxima sexta-feira.
Chermann, que atualmente dirige o Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica de Marselha, na França, trabalha há 15 anos no estudo de vacina contra a Aids. O trabalho é auxiliado por um brasileiro, o patologista paulista Ricardo de Oliveira, especialista na elaboração de exames clínicos. Segundo ele, a proposta da vacina se originou da observação, verificada desde o início da epidemia do HIV, de que alguns pacientes infectados com o vírus não chegavam a desenvolver a doença. "O professor Chermann investigou esses indivíduos e identificou que eles apresentavam um anticorpo capaz de neutralizar o vírus, impedindo que ele entre nas células e se multiplique", explica.
O anticorpo, batizado de R7V, consegue desativar uma proteína chamada de beta2 microglobulina, presente normalmente na superfície celular. Ela funciona como uma espécie de senha de acesso para que o HIV penetre nas células. "Se o vírus não encontra a proteína, ele não consegue entrar e com isso não consegue se replicar", detalha Oliveira. O mecanismo, além de eficaz, como demonstram as pesquisas feitas com os pacientes que não desenvolvem a doença, também tem vantagem diante de um dos grandes desafios enfrentados pelos pesquisadores: ele é comum a todos os tipos de vírus. "Mesmo com as mutações, a proteína envolvida no processo é a mesma", afirma o médico.
Com base nisso, Chermann conseguiu desenvolver uma vacina capaz de estimular a produção do R7V no organismo de pessoas que não tinham o anticorpo. Assim, consegue-se induzir uma reação no organismo de indivíduos que desenvolveram a Aids idêntica à verificada entre os pacientes que dispõem do anticorpo naturalmente. "Inicialmente, a vacina seria aplicada em pessoas doentes, com o intuito de reduzir a carga viral e deter a evolução da Aids. Mas além da função terapêutica, ela também pode ter ação preventiva, eliminando a possibilidade de uma futura infecção pela doença", adianta Oliveira. Ele salienta, porém, que mesmo diante desta perspectiva, a melhor forma de se evitar a Aids é mesmo a precaução. "A camisinha, além de proteger contra o HIV, também evita várias outras doenças sexualmente transmissíveis", alerta.
A pesquisa que busca desenvolver a vacina já passou por várias fases em laboratório e tem o respaldo dos estudos clínicos retrospectivos que apontam o mecanismo do anticorpo R7V como responsável pelo não desenvolvimento da doença. Porém, por falta de financiamento, a etapa clínica da pesquisa - imprescindível para que ela seja aprovada pelos órgãos oficiais - ainda não aconteceu. A esperança dos envolvidos no desenvolvimento da vacina é de que ele seja iniciada ainda este ano com pacientes da Europa e do Brasil. "Existe uma grande disposição dos órgãos reguladores de aprovar logo uma vacina eficaz, barata e sem efeitos colaterais, por isso acreditamos que esse processo não vá levar muito tempo depois de concluído o estudo", prevê Oliveira.
Chermann, que dirige o Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica de Marselha, na França, estuda há 15 anos uma vacina contra a aids
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